Exagerar o tamanho do mercado ilegal só pressionará o governo a implementar novas restrições, argumenta Ed Birkin, da H2 Gambling Capital.
Com estimativas variadas sobre o tamanho do mercado ilegal no Brasil, o diretor-gerente da H2 Gambling Capital, Ed Birkin, acredita que avaliações imprecisas podem ter efeito contrário e incentivar restrições mais rigorosas aos operadores licenciados.
Desde que o mercado online brasileiro foi regulamentado em 1º de janeiro, muitos atores da indústria têm manifestado preocupações sobre a prevalência do mercado ilegal.
Só esta semana, o chefe de integridade da Genius Sports na América Latina, Tiago Barbosa, afirmou a um comitê governamental que 70% a 80% das apostas feitas no Brasil são ilegais.
Ed Birkin, da H2 Gambling Capital, acredita que o tamanho do mercado ilegal no país está “extremamente superestimado”, estimando que esteja mais próximo de 30% do total do mercado.
Ele alerta que exagerar no tamanho desse mercado pode induzir os formuladores de políticas a ver o setor como excessivamente nocivo, resultando em regulações mais rígidas para a indústria legal.
Na visão de Birkin, alguns operadores estariam usando essa narrativa para desviar a atenção de suas próprias falhas.
“Acho que, na verdade, a narrativa está sendo conduzida por vários operadores que estão com baixo desempenho, e fica mais fácil dizer que o mercado ilegal é maior do que admitir que simplesmente não estão competindo bem no mercado legal,” disse Birkin à iGB.
Ele explica que as primeiras estimativas de que o mercado ilegal representaria entre 60% e 70% surgiram em janeiro, quando empresas licenciadas ainda enfrentavam dificuldades para captar jogadores devido às novas restrições de KYC.
Segundo estimativas da H2, a receita do mercado brasileiro foi de BRL 2,2 bilhões em janeiro, quase dobrando até abril, quando atingiu BRL 4 bilhões mensais.
No entanto, ainda que haja quem defenda a narrativa de que 60% a 70% do mercado seria ilegal, isso não faz sentido, comenta Birkin.
“As pessoas ainda falam que 60% a 70% é ilegal,” afirma ele.
“E então você dobra o tamanho do mercado legal; o mercado ilegal também teria dobrado desde janeiro? Não faz sentido nem é possível. Isso colocaria o mercado total em US$ 20 bilhões, o que novamente simplesmente não é verdade.”
Ameaça de novas restrições no Brasil
Menos de oito meses após o início da regulamentação, o setor já enfrenta pressão regulatória adicional.
Há um projeto para aumentar temporariamente o imposto sobre o GGR (receita bruta de jogos) dos operadores de 12% para 18%, que aguarda votação no Congresso para se tornar permanente. Paralelamente, novas restrições à publicidade, como watersheds, também estão em análise.
Embora alguns players defendam que essas medidas só impulsionariam o mercado ilegal, Birkin acredita que o governo está surdo a esse argumento.
“No Brasil, o governo não fica preocupado com o mercado legal ou ilegal ou a proporção — eles só veem o jogo como um grande problema social,” explica Birkin.
“Simplesmente pensam: ‘As pessoas estão gastando demais, precisamos apertar o freio.’”
“Quando foram divulgados os dados de que o mercado legal havia atingido BRL 3 bilhões em um mês, muita gente ficou alarmada: ‘Nossa, isso é um número enorme, totalmente fora de controle.’”
“Aí passa para BRL 4 bilhões em abril, e nesse momento se diz que 60% do mercado é ilegal. Aí, você afirma que o mercado total é de BRL 10 bilhões. Agora você acha que a narrativa ideal para evitar que limitem sua publicidade e o que as pessoas jogam é dizer que o mercado é de BRL 10 bilhões? Isso é simplesmente estúpido, sobretudo quando não há uma única evidência.”
Exemplo de advertência: Holanda
Birkin destaca que essa superestimação do mercado ilegal no Brasil pode sair pela culatra, levando os tomadores de decisão a acreditar que o setor como um todo é muito maior e, por isso, mais prejudicial à população — o que pode resultar em mais restrições, não menos.
Ele observa situação semelhante na Holanda, onde o mercado legal online, lançado em outubro de 2021, cresceu rapidamente devido à intensa publicidade. Isso gerou preocupações sobre os danos do jogo.
Como resposta, as autoridades impuseram uma postura rígida, reduzindo publicidade, elevando impostos e limitando depósitos.
Segundo a H2, os operadores ilegais passaram a representar cerca de 50% do mercado holandês.
“A mesma coisa aconteceu na Holanda,” conclui Birkin.
“Houve um novo mercado, todo mundo anunciou demais, o mercado cresceu, pensou-se que havia excesso de publicidade, então fecharam o cerco, impuseram limites de gasto. E sim, o mercado acabou prejudicado.”
“Acho que o mesmo vai acontecer no Brasil, e não falta exemplos disso acontecendo repetidamente em outros lugares.”
A indústria legal precisa assumir parte da responsabilidade
Birkin finaliza afirmando que, se as novas medidas regulatórias forem implementadas no Brasil, os operadores licenciados terão uma parcela de culpa.
A estrutura concentrada do mercado brasileiro mostra que, se excluir as 19 maiores marcas, os sites restantes detêm uma participação média de cerca de 0,1% cada, segundo H2.
“Acho que as pessoas precisam parar de culpar o mercado ilegal quando, na verdade, o problema é que elas próprias não estão tendo desempenho no mercado legal,” afirma Birkin.
“Não estão alcançando a receita que desejavam.”
“Como indústria, se vocês reforçarem essa falsa narrativa de que o mercado ilegal é maior que o legal, isso só vai resultar em mais restrições ao mercado legal.”
“E, na verdade, a indústria, por mais que não goste, terá que assumir parte dessa responsabilidade.”
